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Muvuca - V


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Capitulo – V


Tinha como diria um entendido na coisa, que Terê era uma senhora a seu modo pacata e até pudica, uma verdadeira Lady, ou melhor, uma santa. Não era preciso ser homem para essas avaliações. Ela era mocinha boba e já tinha seus olhos para Billy Drurys escutava no armazém do Julião, ele dizer para um cliente ao vê-la chegando. Billy vai ser o futuro marido dessa potranca chamada Terelva que também era chamada pelos mais chegados de Terê. Ela realmente se casara aos vinte e cinco anos com Billy Drurys. Ela era muito bonita na época. A família morava no município de Ericórdia sul do estado. Terelva ganhara fácil o concurso de Miss Ericórdia. Apesar do nome inglês do marido, ele era um pinguço nascido no município de São João do Fiofó Roxo, interior do estado. Professor primário que poucas aulas lecionadas.
Ele era todo cheio de humor nas suas relações: Quando ofereciam meia dose de bebida a ele, dizia... “Pedir meia dose. Se chama dose é porque está calculado: é uma dose. Um homem, uma dose. Quem pede meia dose é meio homem”. Três semanas depois, numa tarde quente, com um céu triste de trovoada, e no momento em que estavam caindo algumas gotas de grossa chuva, os dois desciam de um Opala cupê na frente do cartório cível para o enlace oficial. Logo desde os primeiros dias de vida em comum, Terê se via suavemente envolvida na comodidade das ausências de Billy. Ela se sentia feliz na época. Os dias iam assim passando para o casal, fáceis, com bom relacionamento e convivência meiga nos momentos que ele se encontrava sóbrio. Às vezes ele soltava alguns peidos. Por que a cachaça é relaxante e o efeito é justamente no anel. E daí a frase que “cú de bêbado não tem dono”. A esposa sentiu aquele fedor de merda nas suas narinas:
- Billy, você peidou, é?
- Evidente mulher! Ou você acha que eu normalmente fedo assim?
Surpreendia sempre. Não que abusasse da vontade dos outros, mas porque o mantinha um ar de tão denso mistério. Na maioria das vezes estava sempre bêbado. Afastado das suas funções para tratamento de saúde. Bêbado, Billy chegava ao boteco e pedia...
- Garçom aqui tem leite de égua? Não! Responde o garçom
- Aqui tem leite de onça? Também não...
- Tem leite de ganso? Muito menos...
- Deus, o Senhor é testemunha que eu queria beber leite! Garçom bota uma cachaça aí!
Sua irmã mais velha aconselhou a irmã:
- Terê! Você se casou com esse pé de cana! Você vai se dar muito mal. Muito mal.
- Que nada disse ela. Ele é o marido ideal. Chega à casa de porre cai no sofá e dorme, não dá trabalho. Religiosa como eu sou, posso me dedicar à minha fé sem ser molestada por ele.
- Mulher! Pense bem. Ele vai morrer logo de câncer no fígado.
- Melhor ainda, Egride. Fico recebendo como viúva dele, não está bom?
Passados cerca de vinte anos Terê seguia seu destino. Sócia permanente de dois clubes famosos: S.E.R.A.S.A e o S.P.C. (serviço de proteção ao crédito). Ela não costumava pagar ninguém. Do trabalho para igreja e da igreja para o trabalho. Uma crente fervorosa. O inferno era muito real na sua mente. Acreditava de fato em demônios, na possessão por espíritos malignos, e na danação da chama eterna. Fora uma época de um zum... zum... zum... dos diabos. Um escândalo sem medida. Brigavam, falavam mal um do outro, separavam-se e depois faziam as pazes. Ela sempre pedia em suas preces “Papai do céu, busque o Billy que eu não agüento mais”. Botava dinheiro na fogueira santa de Israel, aquela caloria espiritual havia queimado seus neurônios. Ela pagava em dia o santo pedágio do Dindin Macedo, e nada acontecia. A benção esperada nunca chegava. Para muita gente o consolo é a religião, é um Deus, é um conceito de uma vida melhor em outra ocasião ou de céu para os que o merecem. Para ele, não. Seu consolo tem três nomes: Tempo, Consciência e cachaça. O Tempo que ele levou para se acostumar à ausência dela, para preencher a lacuna que ela deixou com outras gentes, outros deveres, outras alegrias. E a Consciência que tinha de ter sido bom marido que ele poderia ser, ainda que não o melhor possível. Essa consciência lhe eximia da culpa que muitos experimentam face à morte presumida, porém negligenciada. Ele a negligenciava sempre, nunca lhe dei menor atenção do que merecia. E fazia tudo isso com o verdadeiro prazer de quem amava a companhia da própria família. Assim, sem nenhuma culpa voejando feito abutre sobre a saudade, o Tempo teve chance de operar.
E não era só isso; mas ainda exigências, egoísmos, explosões tumultuosas dum temperamento cioso. Ela se debulhara em lágrimas com os nervos lhe queimado a alma e falava às vezes até em morrer.
O Billy estava no bar, totalmente bêbado para variar. Ele viu a única mulher do bar, sentada no balcão. Ele vai até lá, põe a mão sobre a perna dela e começa a boliná-la. Depois do susto ela levanta e taca a maior bofetada nele. Ele imediatamente se desculpa e explica:
- Desculpe, eu pensei que fosse minha mulher. Você se parece demais com ela!
- Seu bêbado, vagabundo, filho de um jegue... Responde ela.
- Olha só! Você fala igualzinho também!
Ao chegar a casa, ao entrar no prédio, ele estava fumando. O homem deixou cair o cigarro. Amassou-o devagarzinho na sola do sapato. Apertou os maxilares numa contração dolorosa:
- Vai matar o Capeta. Pior que fumar só se der o rabo. Pelo menos o cigarro só mancha o pulmão, porém queimar o carretel suja o nome de uma família inteira. Não dá pé não...
Ao entrar no edifício em que morava, ele deparou com um degrau no piso de dez centímetros. Isso para quem bebe é um desastre. Billy deu uma topada no degrau, se desequilibrou indo acertar com o cotovelo os seios de uma senhora que saia naquele exato momento.
- Perdão Madame! Se seu coração for tão macio com são seus peitos, a senhora vai me perdoar.
A mulher respondeu na lata:
- Se seu Bilau for duro como seu cotovelo, eu moro no 312.
Ele bateu na porta do seu apartamento. Adivinha quem abriu? Dona Terê, sua esposa na posição de Mister “M”, com os braços cruzados e aquele olhar de pessoa má. Era a figura feminina de Lucifer sem tirar e nem por. Era um verdadeiro demônio de saia.
- Billy! Por que você bebe Billy?
- Porque é liquido. Se fosse sólido fosse, come-loía...
- Fiquei a noite inteira acordada te esperando chegar!
- E eu fiquei a noite inteira bebendo e esperando você dormir.
- Bêbado de novo! Um dia você vai me matar de desgosto, tenho certeza. E tu vai cuspir no caixão.
- Vou não... Vou não... Não vou entrar nessa fila não... Vai ser muito grande.
- Então vai beber até morrer, é isso?
- Aprendeu a adivinhar! Sou um bêbado, estou sempre bêbado! Mesmo porque quando você me conheceu eu já o era... Aliás, Se eu morrer antes de você faça-me um favor. Chore o quanto quiser, mas não brigue com Deus por ele haver me levado. Se não quiser chorar, não chore. Se não conseguir chorar, não se preocupe. Se tiver vontade de rir, ria. Se alguns amigos contarem algum fato a meu respeito, ouça e acrescente sua versão. Se me elogiarem demais, corrija o exagero. Se me criticarem demais, defenda-me. Se me quiserem fazer um santo, só porque morri, mostre que eu tinha um pouco de santo, mas estava longe de ser o santo que me pintam. Se me quiserem fazer um demônio, mostre que eu talvez tivesse um pouco de demônio, mas que a vida inteira eu tentei ser bom e amigo.

Nenhuma mulher resistia tanta ironia. Mas Terê era uma santa. Billy era frasista e brincalhão. Vivia dando conselhos aos seus amigos. “Se dirigir, não beba! Se beber me convida.” Um dia ele foi enxotado da casa por dona Terê. Ela havia se compadecida daquele ser em pânico, à espera de uma oportunidade para prosseguir fugindo. Tão próxima a morte. Cruzou a rua e foi para o botequim:
- Manuel! Coloca uma garrafa de cachaça na minha mesa e um copo. Põe para tocar o discou de Jane e Herondi “Não se vá”. Deixa-o tocar até furar o disco.
- Não posso por música porque meu pai morreu ontem.
- Ué! Ele levou o disco também?
- Desde quando que você passou a beber assim?
- Comecei a beber por causa de uma mulher, mas nunca tive tempo de agradecê-la por isso, acredita?
- Acredito, tu é um bravo, Billy, disse o homem abrindo a garrafa de cachaça e enchendo o copo.
- A verdadeira bravura está em chegar em casa bêbado, de madrugada, todo cheio de batom, ser recebido pela mulher com uma vassoura na mão e ainda ter peito pra perguntar: “Vai varrer ou vai voar?"
Pensa num cachaceiro. Gente que bebe é descriminado demais. Com Billy não era diferente: Era chamado de “Pinguço, Pé de cana, Pau d água, Alcóolatra e Cú de cana”, que é a pior das descriminações. Um dia contou a sua vida em detalhes para um carroceiro. Até o jumento chorou de pena dele. Uma velha prostituta conversando com ele num ponto de ônibus, depois de olhar atentamente para ele disse:
- Você me lembra um automóvel Maverick.
- Por acaso pareço com aquele carro, é?
- Não, mas tenho certeza que já foi bonito, esteve na moda, foi desejado e teve potência.
- E daí?
- Daí que hoje você só bebe.
Ele era um cara prevenido, sempre andava com um vale transporte no bolso, para garantir seu retorno ao lar quando era abandonado pelos amigos. Ele entrou no ônibus coletivo e de tão bêbado que estava. Depois de passar a catraca foi se equilibrando até chegar ao motorista. Então perguntou:
- Este ônibus vai para praia?
- Se você encontrar um biquíni que sirva nele, ele vai...
- Também não é assim... É assim, patrão? Discordou Billy chateado com a resposta.
- Tu já viste praia em Teresina, Cabra? Só se for naquele esgoto a céu aberto chamado de Rio Poty. Naquele mar de bosta. E essa cara de tristeza?
- O médico me disse que eu estou com deslocamento de órgão?
- Explique-se melhor.
- Ele falou que meu fígado foi para o saco.
- Noticia ruim, noticia ruim mesma.
Logo na roleta, cambaleando, diz ao cobrador:
- Se meu pai fosse um gato e minha mãe uma gata, eu seria um gatinho! E continuava:
- Se meu pai fosse um cachorro e minha mãe uma cachorra, aí eu era um cachorrinho! E mais: Se meu pai fosse um touro e minha mãe uma vaquinha, aí eu seria um bezerrinho!
Billy só enchendo o saco de todo mundo. O cobrador, nervoso, pergunta:
- E se o seu pai fosse um veado e sua mãe uma puta?
- Aí eu seria cobrador de ônibus! Desse banco pra frente todo mundo é corno! E daqui pra trás todo mundo é veado! Gritou Billy sem pensar nas conseqüências.
Ao ouvir isto, levantam-se alguns dos passageiros, xingando o bêbado ameaçando cobri-lo de bordoada. O motorista, para evitar confusão, freia bruscamente e todos caem. Um deles se levanta, pega o Billy pelo colarinho sacode-o com violência e depois pergunta:
- Fala de novo, safado. Quem é corno e quem é viado?
- Agora eu não sei mais. Misturou tudo!
Ele desce do ônibus com o cabelo todo despenteado e a roupa em desalinho, entra logo num boteco e já vai pedindo uma cachaça, bebe num gole só e depois: Antes de ir embora ele pede um maço de cigarros, que traz escrito na lateral: "O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE: Cigarro pode causar impotência sexual". Assustado, gritou pro garçom:
- Não Esse aqui não! Dá-me aquele que causa câncer.
Ao sair do boteco, todo embriagado, consegue chegar a casa com muito custo.
Abre a porta e vai correndo para o banheiro. Assustado, corre para o quarto e acorda a mulher:
- Ô muié... Essa casa tá mal assombrada! Eu abri a porta do banheiro e a luz acendeu sozinha. Depois, fechei a porta e a luz apagou sozinha. A mulher, puta da vida, grita:
- Filho da puta! Você mijou na geladeira de novo!
Enxotado de casa pela mulher, que não tava a fim de dormir cheirando bafo de pinga, vai a um beco, acaba dormindo no chão e tem o relógio roubado. No dia seguinte, já curado da manguaça, ao andar pela rua, vê um cara usando o seu relógio, e se aproxima dele dizendo:
- Hei, cara, esse relógio é meu!
- Que seu que nada. Esse relógio eu peguei de um bêbado que eu comi ontem lá no beco.
- Tem razão, não é meu mesmo. Mas que parece, parece!
Ele andava se embriagando todos os dias. Por favor, não contem a Jararaca! Não são mais os cigarros amassados no meio da roupa suja, nem as garrafas de vodca oculta na bagunça do quarto. Agora a porra ficou séria. Ele agora anda com fome. O dia inteiro repetindo os mesmos gestos de autômato, ouvidos escravizados pelo mesmo disco arranhado. Uma vez ouviu dizer que o tempo é o senhor dos destinos. Achou bonito aquilo mesmo sem entender ao certo. Talvez por certo tom misterioso. Apesar de seu impopular ceticismo, confessava que na adolescência lia horóscopo algumas vezes. Como resistir àquela pergunta em letras garrafais: "Seu signo combina com o dele?" Começo de namoro, insegurança, ninguém escapa a uma olhadela, quem pode jogar a primeira pedra? Mas em seguida vinha a decepção, seu signo e ele nunca pegamos uma letra.... Nenhuma previsãozinha sequer, nada. E olha que às vezes eu queria acreditar... Anos se passaram e esse assunto para ele foi se tornando cada vez mais bizarro. Uma agonia cansada, repetitiva. E ele só gostaria saber o que dizer. Porque ainda não sabia. O estômago se contorcia e ele não sabia. Vagava pela casa contando passos, colocando vírgulas em pensamentos e ele ainda não sabia definir. Perdia o sono e olhava pela janela outras vidinhas e não sabia de nada. Adormecia e em sonhos brancos e não sabia. Bebia um tanto de goles de qualquer bebida. Não sabia por não querer. E por saber que sabia.
Terê começava a envelhecer e a olhar constantemente para os relógios espalhados pela residência além de contar as semanas e os meses como se aquele pesadelo fosse durar para sempre. Nuca lhe dava conta que tudo é finito. Quantas e quantas vezes ela o procurava pelos bares da cidade.
- Sabe onde posso encontrar Billy Drurys?
- Não. Não sei. Sempre era a mesma resposta.
Ele era um bêbado horrível, e ela era a única quem podia agüentá-lo quando ficava desse jeito. Porque bêbado e peido agente só agüenta o da gente. Não é?...
Um dia Billy passava diante de um templo religioso, um homem com uma Bíblia e vários folhetos na mão parou dentro dele:
- O senhor quer ser testemunha de Jeová?
- Por quê? Não sabia que ele estava sendo processado... Além do mais eu não posso ser testemunha porque não vi a briga.
Assim passaram anos. Todos os dias, assim que a dona Terê chegava a casa, às sete horas da noite, começava a oração de exorcismo. Billy ficava ouvindo, achando graça nas palavras da evangélica: ó, Senhor, o demônio chegou, o demônio e a sua legião de capetas chegaram, queima eles, Jesus, expulsa! Era engraçado, e Billy divertia-se muito. Enquanto colocava lenha no fogão para fazer o jantar. Terê tentando levá-lo a igreja evangélica para tentar livrá-lo do vício pelo caminho da espiritualidade. Mas sempre fracassava. No primeiro culto, Billy sentado na primeira fila ouvia o sermão atento quando em dado momento o pastor apontou o dedo na direção dele e falou aos berros:
- Sai demônio do álcool!... Em nome de Jesus... Sai demônio.
Imediatamente Billy saiu apressado e assustado com a cena. Depois de muita conversa Terê Caçapa convencê-lo de voltar a assistir outro culto. Mas deu errado outra vez. O pastor gritou em dado momento do sermão;
- Vou passar o saco em vocês e vocês vão colaborar com a obra.
- Em mim? Ninguém macho nenhum passa o saco! Saiu do culto indignado para nunca mais voltar.
Sua esposa ao chegar a casa, cobrou:
- Por que não me esperou, saiu na metade do culto?
- Quer saber mesmo por quê?
- Quero!
- Porque quando aqueles crentes resolvem orar para Jesus nas alturas, quando a gente diz nas alturas, era nas alturas mesmo. Gritavam desesperadamente. Ninguém agüenta aquela zoada toda.
- Você vai para o inferno, quando morrer!
- Eu vou para o inferno. Não tenho mais ilusões. Se o inferno existir, já estou lá! Olha, e não é porque sou um pedagogo, não. (Mas diz um amigo meu que isso é no mínimo um agravante. Os juros do meu “cheque especial” dos pecados.) Ai! Já dá até para sentir o calorzinho. Então vou confessar: Vou para o inferno porque menti! Ufa! Falei. Céus! (Hora de clamar pela absolvição).
Passou longos segundos contemplando o invisível a formar o visível. Lembrou-se de algo sagrado, talvez Deus, Amor, ou algum conceito difícil assim que um dia ela tentou lhe explicar, e não sabe bem se entendeu. Passado mais algum tempo, papai do céu ouviu as preces de Terê. Então enviou um anjo em forma de cirrose hepática buscá-lo.
Fora numa tarde de sábado, de melancolia e chuva. Billy e seus colegas de copo e de cruz haviam bebido cachaça três dias sem parar. Haviam apostado entre si quem cairia primeiro. Ao som de um pandeiro eles se alegravam cantando e dançando o samba de Martinho da Vila.
Dinheiro, para que dinheiro se a Terê não me dá bola
Em samba de batuqueiro quem fala alto é a viola.
A meia noite soara há muito. Quando de repente vacilou uma das pernas, virou-se de lado e rolou na calçada botando uma baba amarela pela boca. Billy, o mais animado de todos cantando seu samba preferido era um exemplar de entusiasmo, característico de tudo que fazia, exceto trabalhar. Agora moribundo nos seus últimos sopros de vida.
Terê Caçapa Drurys por bondade e por consideração, mesmo nervosa, durante alguns dias não falou na criatura, nem pensou naquele com os pés na cova. Como ficava quase o dia todo fora de casa, tiveram dificuldade em localizá-la quando encontraram seu marido morto. Sentiu então como um alivio doloroso, em ver o fim de seu longo martírio! Havia décadas que ele durara. E pensando em tudo o que tinha feito e que tinha sofrido, as infâmias em que chafurdara e as humilhações a que descera, vinham lhe um tédio de si mesma. Um nojo imenso da vida. Parecia-lhe que a tinham espezinhado; que nela não havia orgulho intacto, nem sentimento limpo; que tudo em si, no seu corpo e na sua alma, estava enxovalhado, comum trapo que foi pisado por uma multidão, sobre a lama. Não valia a pena lutar por uma vida tão vil ao lado daquele homem. A sua fé seria uma purificação, e a morte dele uma purificação muito maior. Onde estava ele, o homem que a desgraçara por tanto tempo? Num caixão em cima da mesa. Ele morrera estupidamente como vivera. Egoísta, pensando somente em si próprio. O infame passara seus últimos anos a difamá-la, tentando agredida com palavras e às vezes até fisicamente. Apavorando os filhos.
Fora abandonado na porta de um pronto socorro pelos amigos de cachaça. Dois enfermeiros com uma maca se aproximaram daquele corpo estendido no chão. Tocaram várias partes do corpo, tomaram-lhe o pulso, suspenderam-lhe a cabeça e buscaram-lhe o palpitar do coração. Por último examinaram suas retinas. Em torno do cadáver reuniu uma pequena multidão à acotovelar-se em comentários. Não tinha mais jeito. Billy desertara para sempre da vida.
Uma pessoa viera avisar Dona Terê, Ela estava deitada no sofá, adormecida, quando a campainha tocou. Sua cadelinha Boleirinha erguera-se logo bruscamente do sofá, com as orelhas em pés, dardejando para aquele estranho, com seus olhinhos desconfiados, daquela presença humana. Um instante o homem recuou e ela começou a ladrar. Ficou óbvio que o visitante não iria embora, e ela se esforçou para sair do sofá. Aquela inesperada aparição tinha uma missão sinistra. Terê alertada pelos latidos da cadelinha veio até a porta:
- Já vai, já vai, gritou ela, passando as costas da mão no seu rosto úmido de suor, dando uma olhada desinteressada no espelho.
A olhada revelara um rosto vermelho, olhos inchados, cercados de uma cabeleira desgrenhada, de cabelos castanhos e úmidos. Fungando e afastando os cabelos do rosto, ela abriu a porta:
- Pois não?
- A senhora que é a viúva de Billy Drurys?
- Como viúva? Sou a esposa dele. Não estou sabendo de nada.
- Acabou de se tornar viúva. Seu marido está esperando ser liberado no I.M.L. de Parnaíba. Precisa da presença da senhora lá. Queira receber meus pêsames !
Durante alguns segundos ela não conseguiu dizer nada. Aquilo, fez com que o sistema nervoso dela e seu cérebro entrasse em estado de confusão. Ela soltou um suspiro, com os olhos arregalados. Ele a viu tremer e toda pálida. Algo irrompera no seu coração. Ficou branca como cera. Ela recuou olhando-o angustiadamente, e como se não compreendesse.
- Que grosseria! Isso é jeito de dar uma noticia dessa? Dispenso seus sentimentos! Respondeu Terê com os nervos a flor da pele.
Ela calara-se. Sentiu outra vez o sangue abrasar-lhe o rosto. Ela enternece-se, os seus olhos enevoaram de lágrimas.
- Cada pessoa que passa em nossa vida, passa sozinha, é porque cada pessoa é única e nenhuma substitui a outra. Cada pessoa que passa em nossa vida passa sozinha, e não nos deixa só, porque deixa um pouco de si e leva um pouquinho de nós. Essa é a mais bela responsabilidade da vida e a prova de que as pessoas não se encontram por acaso, desabafou a viúva.
No velório, sambista Dicró foi um dos primeiros a chegar para prestar a última homenagem para seu amigo de copo.
A noite estava seca e fresca, imersa numa escuridão amenizada pela luminosidade das estrelas. Até as luzes à mercúrio dos postes estavam amareladas. Não havia nenhuma promessa de chuva. O céu brilhava limpo e as folhas secas no chão estalavam sob os pés de quem estava no velório. O ambiente reinava uma tristeza que dava dó... Então nesse momento se aproximando do caixão, dois bêbados, um deles olhou para Billy e lamentou:
- Agora você vai para um lugar que não tem Picanha. Que não tem bebidas, que não tem feijoada, que não tem bacalhau. Que não tem arroz, nem feijão.
Rapidamente um dos bêbados que o acompanhava saiu correndo da sala e foi seguro por alguns presentes que quiseram saber os motivos daquela reação inesperada:
- Me larga... Me larga que eu vou correndo fechar as portas da minha casa. Lugar que não tem nada é lá. Certamente vão levar o defunto.
Outro reclamou em seguida:
- Cadê a cachaça para a gente beber o morto como manda a tradição? Ninguém oferece nada... Vamos correr um chapéu aqui para arrumar o dinheiro do litro de “51”. E teve aquele que... Cumprimentou a viúva, dizendo: "Meus parabéns! Bonita festa, nossa como você fica linda de preto!"
Começaram a intimar os presentes. Doutor Arqui Mede deu 10 reais, outro cinco, outro dois, Brito três reais, nesse momento a viúva Terê Caçapa levantou-se da sua cadeira para tentar um protesto, mas foi em vão. O Pé de cana disse a ela:
- A senhora não precisa colaborar, porque já entrou com o defunto. Só os outros.
Egride, que poderia ser considerada uma mulher polêmica. Nunca levava desaforos para a casa e não tinha medo de nada e de ninguém. Ela se espremia num canto sem saber se ria ou chorava de tantas presepadas naquele velório. A viúva olhava para o caixão e lamentava:
- Por que demorastes tanto a ir?
- É porque estava sendo conservado no álcool, ainda bem que meu Mamato não bebe aquele bezerro desmamado só toma leite de canudinho, cochichou Egride.
- Mas também... Quando ele bebe você deita-lhe o rolo de amassar macarrão no lombo. Se ele bebesse todos os dias, morria antes de lesões internas, de tanta surra que tu darias nele.


Continua...

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Sobre este texto

ivan

Autor:

Publicação:9 de junho de 2012 12:37

Gênero literário:Crônica erótica

Tema ou assunto:Pulando a Cerca

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