Conto Erotico | Historia Erótica

Publique seu texto gratuitamente!

Autores mais lidos
Loja História-Erótica
Conto erótico no isntagram
conto erotico no youtube
conto erotico no tumblr
Imagens Eróticas
Do fundo do baú

Muvuca - XI

Capitulo - XI

Ela tinha uma tia chamada Enorma que só se relacionava com velhinhos babões. Essa mulher surgir onde menos se esperava e manifestava conforme sua TPM, seus problemas, suas inseguranças, suas ansiedades, suas frustrações, seus ciúmes e sua educação. E sua herança genética, logicamente. É aquela coisa: filha de burguês: burguês será... E no trânsito? Ela na direção era difícil: não existia cortesia, zero em delicadeza. Mulher fica intragável quando percebe que alguém dificulta sua passagem, parece que o mundo ia desabar. Mas ela pegava pesado, tudo tinha um ar pedagógico, aquela coisa professoral, de mostrar como se faz, de mostrar o certo, de punir para que a coisa não se repita. O 'chato' é aquele que tudo sabe, pensa que ninguém está ao alcance de nada, que todos são tolos e incompetentes diante de sua sabedoria, de sua genialidade e de seus anos de estrada na vida. A gente agüenta, mas não muito! Paciência tem limite. Conviver com um chato é castigo, já é o começo do calvário. E assim começava o bate-boca, um negócio que vai indo, subindo, enlouquecendo. Ela era acostumada a Pagar os olhos da cara por frascos de perfumes das grifes famosas como: Armani, Versace, Givenchy, Chanel, Prada... e o escambau.
Ao se separar do último velhinho babão: ela havia até colocado um anúncio na Net que não tinha dada o resultado esperado: “Enorma . Sou uma mulher séria, evangélica carente, carinhosa e quero me casar. Procuro “homem solteiro ou viúvo, rico, com mais de 65 anos e com sérios problemas de saúde”. Apenas uma resposta nada agradável... “Negão sarado, 2,05m. Tenho algo maior que a barriga e não é o beiço. Venha e descubra porque meu apelido é bomba de gasolina.” Também preciso de namorada com automóvel. A interessada deve mandar fotografias do automóvel. Imagine, ela ficou enfurecidacom aquele e-mail.
A bela morena era baixinha. Imagine uma mulher que não podia usar “OB“ porque pisava na cordinha de tão pequena e gorda que era. Ela se aproveitava do fato de não poder ser presa. Era só se deitar no chão que ninguém conseguia levantá-la mais. Muito pesada. Um dia com seu atual idoso boca-aberta, ela perguntou na maior cara-de-pau:
- Querido, o que você achou de atraente em mim para se casar comigo?
- É exatamente isso que os meus amigos me perguntam! Respondeu ele.
- Você é muito feio, sabia?
- Sim... Você tem razão, ele confirmou... Eu era tão feio que quando nasci, o doutor me deu um tapa na cara. Mesmo assim não chorei, mas quando me viram, choraram o médico, a enfermeira e minha mãe... todo mundo chorou!
Era um Velho charmoso, com lindos olhos verdes (cobertos com cataratas), loiro (só dos lados), atlético (era torcedor desse time), corpo malhado (pelo vitiligo), um metro e noventa (sendo um metro de altura e noventa de largura).
Ela lhe traduzia o que há de mais apaixonante na intensidade da vida: a inesgotável imensidão das coisas “insignificantes”. Era uma espécie de anjo que aceitava dividir com ele suas asas: não havia como não reconhecer. Movíamos-se do humano para o mítico. Curtiam seus momentos em que o tempo não tem qualquer autoridade sobre eles. As pessoas que subestimavam detalhes essenciais. Pensou muito sobre tudo e dias depois sua consciência ainda reclamava, então resolveu escrever algo que soasse como um tipo de denúncia sutil, mas sua consciência continuava pesada por não ser bobo e não se deixar enganar com tão pouco: somente a consciência de um covarde se contentava com hipocrisia para ser leve.
Casamenteira que só. Enorma nem bem se separava de um, que já casava com outro. Ultimamente andava ela andava de mãos dadas pelo centro da cidade com um velhinho babão que acostumava dormir de boca aberta. Um cara todo desajeitado que vivia coçando o saco e cavoucando o nariz. Ainda por cima um “agnóstico”. Gostava de Mar, sol, futebol, música, cervejinha é tudo que brasileiro gosta. Trabalhar é duro, muito sufoco, não é? Ainda encontrava a esposa sempre de mau humor. Ela o achava tão velho que não viu o dilúvio, mas pisou no barro. Ele era mais velho que rascunho da Bíblia. Era uma pessoa com um olhar malicioso, desorientado, que não só queria algo para si, mas, principalmente, queria que o outro não tivesse nada, que se danasse. Tanto fazia ser um objeto, um status ou uma qualidade de alguém; o que interessa é o destruir. E, naturalmente, espalhando seu veneno e contagiando alguns ao seu redor. Com o passar dos anos morria a amizade, morria o carinho e o companheirismo entre os dois. Nenhum velho desapega-se da vida de uma maneira natural, aceitando, conformado, o que é arrancado com brutalidade. Presentes de natal dado ao idoso e tomado de volta para distribuição e escárnio... Calou-se, silenciou, encobriu... Assim enterrava-se um relacionamento antigo, graças aos destrutivos que chegava a hora que não era mais possível colocar uma vírgula ou dois pontos, uma pausa. Os sinais perdiam-se no tempo. E, como não tinha mais como arrumar o estrago, um ponto final era o bastante para encerrar a história mal vista, mal contada e mal interpretada. Não tinha mais como revertê-la. Isto era o que plantavam os invejosos e os mentirosos, mas, acabavam morrendo de seu próprio veneno.
Sua irmã Egride perguntou em dado momento:
- Finalmente conseguiu tirar o vício que o seu marido tinha de roer unhas! O que foi que você fez?
- Escondi a dentadura dele!
Embora andassem calmamente de mãos dadas, e evitasse gestos inúteis, a verdade é que eles, misturados às dezenas de pessoas que, naquela madrugada, se encontraram no aeroporto, mesmo que estivessem parados, ou até se fossem estátuas. Era como se a terra fosse para eles um rápido descanso, um momento antes de uma revoada para o céu, ou ao menos para os travões de ferro que cruzavam o teto inacabado do aeroporto de Cumbica, Guarulho, São Paulo... Foi assim que se viram na primeira vez, quando passara mergulhados no próprio silêncio. A vida era um fingimento, poderia perfeitamente dizer o mais sincero dos poetas. E talvez ela realmente acredite nisso. Entretanto, há algo mais diabólico por trás dessa farsa, desse grande teatro que era a vida. Não sabia definitivamente o que era. Só sabia que era. E ponto. Eram máscaras, rótulos, estereótipos. E a verdade onde ficava nisso tudo? E os mais profundos sentimentos? Para onde iam? Esses, na maioria das vezes, ficavam escondidos em gavetas empoeiradas, dividindo espaço com toneladas de papéis sem sentido, acumulados entre tristezas e insatisfações as mais diversas e cruéis. Na verdade, Todo mundo quer mudar algo e quem não pode, gostaria. Mudar tudo.
Ela malandramente cochichava no seu ouvido como fera bandida:
- Me pega, prenda-me, possua-me como quiser. Entrelace-se entre minhas pernas e faça-me sua mulher. Venha, chega, rasga, chupa, suga, embaraça, satisfaça todos os seus desejos no meu corpo.
Aparecera naquele sítio e logo se organizara uma aura de mistério em sua volta. Ela saía de casa logo pela manhã, regressava tarde, ocasionalmente ausentava-se pela noite. Acumulavam-se as suspeições. Corria o tempo; uma semana passava, outra, e outra ainda. Para onde fora? Que seria feito dela? E se ele não regressasse, não pudesse regressar ou não quisesse regressar? A esposa significava uma verdadeira tortura. Quando estava com ele, ela representava o papel de mulher bandida, com declarações intimas ao pé do ouvido:
- Desliza em mil o seu suor sem pudor, timidez ou frescura, queima-me com fogo toda a malicia de minha fúria. Danado, gostoso, cachorro. Bandido! De tudo vivido ao ter me possuído.
O velho desgostoso com sua nova mulher começava a beber e aquilo descia gostoso, provocando alguns lacrimejo e sorriso fácil. Ficava sociável e alegre. Contava algumas piadinhas pra "relaxar o ambiente". Com mais alguns goles, se torna o cara mais inteligente do local, domina praticamente todos os assuntos, e discutia como se fosse o "rei da cocada preta". Conhecia tudo. Esse é o estágio Allain Delon. Ele começava a se achar o cara mais lindo e gostoso do lugar. Todas as minas começam a dar bola! Até mesmo as que não olhavam, pois estas só estavam fazendo charme para chamar sua atenção, estão "dando uma de difícil!” Esse é o pior de todos. Você faz um monte de burradas e acha que ninguém estava vendo nada. Derrubava copo, quebrava garrafa, fazia xixi fora da privada de propósito, fica pendurado em todo mundo, conta só piada chata, faz força pra ficar em pé quando já não caia mais, olhava pra bunda da namorada do seu amigo, mexia com a cunhada, elogiava a sogra, começava a imitar bicha e assim ia...
- Como é que pode? Eu vivo com meu Mamato por amor, porque ele não tem nada. Um afro-descendente que eu adoro beijar seus lábios carnudos e montar a rede para ele curar seus porres.
Porém o idoso que Enorma havia buscado no Sul tinha patrimônio. Recém chegado a Teresina no Piauí, passeou pelo centro da cidade e foi a dois Shopping centers. Achou estranhou os títulos de filmes com nomes trocados para chamar a atenção. Achou aquilo muito estranho:
Uma Linda Mulher. A Cabrita Aprumada O Poderoso Chefão, O Coroné Arretado O Exorcista. Arreda Capeta! Os Sete Samurais. Os Jagunço di Zóio Rasgado. Godzila, O Calangão. Os Brutos Também Amam. Os Vaquero Baitola. Sansão e Dalila, O Cabiludo e a Quenga. Perfume de Mulher. Cherim di Cabocla. Mamãe faz cem anos. Mainha num Morre Mais! Guerra nas Estrelas. Arranca-rabo nu Céu. Noviça Rebelde. Beata Increnquera. O Corcunda de Notre Dame. O Monstrim da Igreja Grandi. O Fim dos Dias. Nóis Tamo é Lascado. Um Cidadão Acima de Qualquer Suspeita. Um Cabra Pai D' égua di Quem Ninguém Discunfia. A Pantera Cor-de-rosa. A Onça Aviadada


Ela fora casada com um pseudo-advogado que a aconselhava em relação aos três filhos que tivera com ele: Siga as orientações deste guia e crie verdadeiros criminosos, dignos de participar do programa do Datena. Comece desde muito cedo a dar ao seu filho tudo o que ele quer. Assim ele se convencerá, quando crescer, de que todo o universo gira em torno de seu umbigo e tem obrigação de satisfazer todos os seus desejos e caprichos. Faça sempre tudo que devia ser obrigação dele fazer. Arrume as suas coisas, apanhe o que ele deixar no jogado no chão, faça seus deveres escolares e limpe tudo o que ele sujar. Desta maneira se habituará a empurrar para os outros as suas responsabilidades. Se, enquanto pequeno, o seu filho utilizar expressões grosseiras, ache graça. Isso fará com que ele se convença de que é espirituoso e o levará a refinar a sua linguagem ordinária. Não lhe dê orientação moral nem lhe transmita princípios éticos. Afinal, ele poderá fundar uma igreja, enganar milhões de imbecis e ficar multimilionário. Evite recriminá-lo, para que ele não crie um complexo de culpa. Complexos como toda a gente sabe, não deixam que as crianças desenvolvam a sua personalidade. Deixe que o seu filho navegue na internet o quanto quiser. Dê a liberdade para que o seu espírito se alimente de fantasias. Discuta, e se possível, brigue fisicamente com seu marido na frente dele. Isso é muito útil para que ele se convença de que a família é uma instituição nociva e de que não deve qualquer respeito aos seus pais. Dê-lhe todo o dinheiro que ele quiser. Evite que ele o ganhe com o seu trabalho ou através do seu bom comportamento. Tem tempo. Deixe-o aproveitar a vida e ser feliz enquanto é jovem. Satisfaça todas as suas exigências ou caprichos, no que se refere a alimentação, vestuário e conforto, a fim de que o seu filho não possa nunca sentir-se frustrado. As frustrações, como se sabe, não permitem que a personalidade se revele e torna as pessoas mais infelizes. Defenda sempre o seu filho! Dos seus amigos, dos vizinhos, dos professores e da polícia. Afinal de contas, é tudo uma gentalha desprezível que tem inveja de uma criança tão linda, amada e bem cuidada pelos pais.
Ela encostara-se no seu novo companheiro porque percebeu que a sombra era boa, além de futuro promissor... Esse era o milagre. Os dois estavam sentados no sofá cor de vinho que ficava na entrada da mansão de doutor Evilázio. Aquele que tem uma piscina no quintal da casa que todos chamam de Pinicão a céu aberto.
- Você já deve ter percebido que gosto muito de dinheiro... Disse Enorma sem titubear.
- Ah ta...
- Você é um covarde, sabia?
- Como assim? Perguntou meio sem entender o porque daquela afirmativa.
- Você nunca me comeu em público. Tudo que fizemos é entre quatro paredes.
- Quando for curar sua carne, ordene, não peça. Pois muito interessa, seu fôlego seu fogo. Pois sempre fico submisso a ti.
Ela fez uma pausa. Seus olhos atentos perceberam o súbito empalidecer do bonito rosto dela. Fazia um tremendo esforço para se controlar e permanecer calma. Sua vida conjugal era, de fato, de uma melancolia tremenda. Acabara-se a vertigem de bondade. E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia. Descontado o período da lua-de-mel, que ele estimava em oito dias, nunca mais fora bem tratado. Sofria as mais graves desconsiderações, inclusive na frente de visitas. Tirava a roupa no escuro e, depois, andava caçando o pijama, como um cego. E quando, afinal, pôde deitar-se, fez uma reflexão melancólica: há dez meses ou mesmo um ano que o beijo na boca fora suprimido entre os dois. O máximo que ele, intimidado se permitia, era roçar com os lábios a face da esposa. Queria ser carinhoso, todavia, ela o desiludia: "Na boca não! Não quero!".
Outra coisa que o amargurava era o seguinte: a negligência da mulher no lar. Esquivava-se de suas obrigações matrimoniais, mas, enfeitava-se, perfumava-se, para quê? Ninguém sabia :
- Será que a esposa honesta e ausente de intimidades também precisa estar banhada em perfume?
Mas as freqüentes tentativas não passavam de paródias. Estava ofegante, devido à tensão que a dominava. Mas não queria recuar, agora. Precisava dizer tudo a seu companheiro. E, de preferência, de um modo que não soasse tão ofensivo.
- Isso é o cúmulo! Grunhiu a vítima, num tom involuntário de surpresa.
- Qual é a surpresa?
- Pegou-me direitinho! Pensei que fosse uma mulher interessada somente nas coisas espirituais. Veja como é a vida. A cor dela a abandonou novamente.
- É... A vida é cheia de surpresa.
- Isso é um novo tipo de humor, ou será que ficou realmente de miolo mole?
- Deixa-me ver se entendi... Você chama de loucura o fato de termos casado.
- Não, ela respondeu, meneando a cabeça. E, por favor, tente me compreender; o que chamo de loucura é o fato de eu ter explodido algumas vezes com você, como uma panela de pressão... De simplesmente jogar pela janela toda reserva de meu bom senso.
- Querido, o que você achou de atraente em mim para se casar comigo?
- É exatamente isso que os meus amigos me perguntam! Respondeu ele.
Ao entrar no banheiro, aquela esposa carola encontra o marido se masturbando no banho. Escandalizada, pergunta:
- O que você está fazendo?
Na maior cara de pau ele, responde:
- Eu lavo meu pau na velocidade que eu quiser, porra!
Seguir o coração era uma proeza para poucos. A maioria fica no meio do caminho, assombrada com a possibilidade de fazer descobertas que possam pesar e transformar, romper, lançar cada um de nós no desconhecido. Embora detestasse admitir, Enorma ficara impressionada com aquela conversa franca. E uma mudança profunda, mas a principio muito sutil, começava a acontecer em seu íntimo. Ela começava realmente a gostar um pouquinho do marido. A ansiedade quase imperceptível na voz dele não escapava aos ouvidos atentos da sra. Enorma sempre cheia de razão. Ela sempre fora uma péssima mentirosa quando queria convencê-lo que viveria apenas para ele, sem intervenção dos três filhos, de outro relacionamento. Dois deles tinham idéias fixas sobre trabalho: “Hora de comer, comer! Hora de beber, beber! Hora de dormir, dormir! Hora de vadiar, vadiar! Hora de trabalhar, pernas pro ar que ninguém é de ferro!”
Enorma tinha uma idéia fixa: “dinheiro, dinheiro e dinheiro!” Pelo que se sabia: a gente só conseguia muito dinheiro em três circunstancias: Nascendo já rica, ou herdando, coisa que ela não podia contar, casando com pessoas ricas, também não teve competência ou sorte talvez para isso... Então o último recurso era se contentar com mixarias, mesmo.
Na noite de Natal, quando o comerciante vitima do golpe do casamento lucrativo estava deprimido, não totalmente arrasado porque tinha peru, visto que, com o passar dos anos, não lhe restara outra paixão a não ser a gula. Imensa, porém foi sua surpresa quando encontrou o peru não na cozinha, enfiado no espeto e girando lentamente sobre um fogo de carvão. Acontecera uma coisa realmente extraordinária. Não tendo conseguido conter-se, Um surto psicótico espantoso explodiu em torno do marido de Enorma. Bebendo aqui, bebendo ali, acabou presa de grande excitação abandonaram-se numa embriaguez de vinho.
O drama era existencial, não continha mortes nem ameaças de. Fora uma frase convencional, assim como "não devemos matar a velho”. Foi a vez de um dos filhos de Enorma se manifestar, embora não suspeitasse que tipo de escândalo estava prestes a estourar. Ao ouvir esses resmungos, o idoso concluía... Matar ou morrer? Não chegava a ser uma opção em sua vida, mas uma série de pensamentos que tinham, ora a sua lógica, ora o seu absurdo, e em ambos os casos, a sua conveniência. Evidente, não pensava nunca em sua própria morte, mas sabia que havia gente que morria e gente que matava. Enorma era classuda, caia da panca e, sem vacilar apronta os maiores salseiros. Não regateava pra fazer um escândalo.
- Tá bom, se vocês querem passar a noite de Natal dizendo coisas sem sentido, por que não? Concordou Enorma com os filhos desajustados.
- Merda de sitio, pensava o sexagenário, mas pensar doía.
Nada mais a fazer senão aquilo. Era motoqueiro e tinha 27 anos e uma motocicleta, mas nenhum juizo. Não tinha mais nada nem precisava. Possuía o mundo e todas as pompas do universo porque sentia a moto entre as pernas. Amava a moto e, de moto próprio, só amou a própria moto. Vivia trepado na moto, correndo pelas estradas, sentindo o trepidar dos 57 cavalos do motor. Era um Deus, dono do mundo, dono do próprio destino. Não saía da moto nem para comer nem para beber. Tampouco dormia. A moto o possuía e ele possuía a moto. Andava sem itinerário, nunca ia a parte alguma porque se considerava em todas as partes. Adquiriu a onipresença a própria dos deuses, de ser e estar em todos os lugares e modos. Não se preocupava com o Bem e o Mal. O único mal seria a moto enguiçar ou a gasolina acabar. Mas a moto era eterna, a gasolina jamais acabava. Era o filho mais exaltado, com a cabeça chapada de maconha misturada com álcool desabafava em família:
-Mas o filho da puta nem me ouviu. Pulou na cama, sem dizer disse Boa Noite e enfurnou no mais profundo dos sonos. Mas isso não vai ficar assim! Amanhã eu acerto as contas com esse velho folgado.
Além de alguns empurrões e ameaças fúteis e ofensas verbais, a briga não foi adiante.
A mesa posta, a bebida escolhida, os legumes limpos e cortados, o arroz, o indispensável à aquele churrasco, molho de vinagrete, testavam a textura e sabor comprovei na língua antes de vertê-lo sobre cada sulco do pernil de porco que lentamente vai dourando no braseiro. Ouvia uma frase num tom mais alto de voz, um tom aborrecido. Ouvia umas gargalhadas. À sua frente, debaixo dos pés de árvores, as sombras deixam vazar um polígono de luz que vai sem pressa mudando de lugar. Estavam distribuindo os presentes. Os filhos de Enorma tinham todos os defeitos dos adultos e mais um: O da imaturidade. Um deles bebia uísque, dançava rock e fumava maconha.
Era uma noite adentro, e eles viam televisão deitados no sofá da sala. Quase uma da manhã, estava quente. O idoso levantou-se para tomar água. O sitio silencioso. Não havia ruídos. Trancando-se em seu quarto e dominado pelo terror, ele ficou refletindo que devia ter ferido algum ponto fundamental da ética comportamental. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém. E ele a via tudo isso não como códigos alfa-numérico, como se poderia supor por minha tentativa de analogia anterior, mas como um grande esquema, um diagrama mental, onde retas rápidas e coloridas eram continuamente traçadas e retraçadas, um mapa de relações e associações. Via pessoas que sonhavam com outras pessoas, bem próximas sem que soubessem, e via que tal e tal e tal pessoa haviam escutado a mesma canção. Mas, com ele era só desarmonia.
Agora lhe manifestava um enorme peso no corpo, a terrível dor nas têmporas. Sentado de costas para a janela, observava melhor a casa sem a presença deles e começava a perceber o verdadeiro tamanho daquela solidão. É aí que tinha consciência o que era, onde havia falta, onde aguardava infantilmente um preenchimento. E cada segundo de espera é uma pequena morte dentro dele, como se a ausência daqueles dela fosse a antecipação da sua própria ausência, como se já fôssemos, os dois, meros autômatos de um teatro de ridícula melancolia.
Quando fraco raio de sol projetou-se sobre seus olhos, pensou que ficaria cego. A luz entrava pela veneziana aberta e se espalhava no seu rosto. Não sabia onde encontraria ânimo pra levantar a cabeça que pendia inerte sobre o peito. Olhou pra fora, enfrentando aquela luminosidade opaca, estranha, que descia do céu escuro lá dos lados da serra. Um panorama de assustar leão. No ar, aquele chumbo grosso filtrado pelo sol; aquela névoa encardida e porosa. Estou falando da poluição que amanhecia ao seu lado, à sua volta, envolvendo todo esta maldita latrina de monóxido de carbono.
A cabeça latejava terrivelmente. Eu sofria a pior ressaca da minha vida; não obstante, dentro daquele bloco de granito enroscado no alto do pescoço, no centro daquela pedra dolorida, havia uma idéia; à qual eu me agarrava como última saída, derradeira solução, desfecho final do seu problema. Ir embora e sair da vida daquela família interesseira e sem sentimentos nobres. A maldita certeza de acabar de vez com a sua existência naquele dia lhe dava forças, apesar do porre homérico da noite e a ressaca no dia seguinte. Ele se perguntava cada vez mais infeliz “Por que um cara se mata? Ou melhor: existe razão pra estar vivo, só porque se foi parido? No meu caso, e nos milhares de outros milhares, sim senhor, a resposta é negativa”... Me mata a faca, a bala, me enforco, me atiro na frente de um caminhão, tomo guaraná com formicida, era só o que passava na sua cabeça. Mas devo dizer por obrigação de consciência que atribuía ao vinho, esta santa bebida, a força moral e a coragem para pôr em prática tal decisão. Ouvi dizer que bebedor de vinho era mau caráter. Discordava... Ou então sou ele era a exceção. Devasso, dissipado, preguiçoso e libidinoso, sim. Mas mau caráter, não. Depois, o vinho dava a clarividência cética, objetiva, que só o bebedor tinha. Se ele passava trinta anos de sua vida enchendo a cara e encharcando o organismo diariamente com este líquido perfumado e azedo, sua visão do mundo se transformará completamente; e ele então chegaria à definitiva conclusão.
No dia seguinte, ao encontrar Enorma. Os olhos se tocaram ásperos naquele final de tarde modorrento, sem vírgulas ou ponto final. Ele não procurava nada. Ela apenas sonhava. Rapidamente desenharam ávidos traçados entre expressões de química e sorrisos mal disfarçados. Parados, pareciam flutuar. Ela fingia que não via e ele fingia conhecê-la de algum lugar. Aparentemente ínfimo a distância que os separavam. Bastaria apenas um dedo para virar pelo avesso a terra que teimava em girar ao contrário. Ao ouvir sua voz, sentiu sinceridade:
- Neste ponto, você tem uma escolha. Há três caminhos a seguir.
Um, curto, grosso e sincero. Eu não quero me separar de você. Vamos entrar num acordo.
Um mês depois, ele chega a casa do trabalho.
Ao redor havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. A esposa andava de um lado para outro na cozinha, cortando os bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o calor do forno ardia nos seus olhos. Ele sentiu que alguma coisa pairava no a ar... E acontece uma coisa sem precedentes: a mulher, pintada, perfumada, ao vê-lo, se atira nos seus braços. Foi uma surpresa tão violenta que ele perde o equilíbrio e quase cai. Em seguida, ela aperta entre as mãos o seu rosto e o beija na boca, num arrebatamento de namorada, de noiva ou de esposa em lua-de-mel. Ele apanha o jornal, que deixara cair. Maravilhado, pergunta:
- Mas que é isso? Que foi que houve?
Ela responde com outra pergunta:
- Não gostou?
Ele senta no sofá da sala confuso...
- Gostar, gostei, mas... Você não é assim, você não me beija nunca.
Enorma teve um gesto de uma petulância que o delícia: vem sentar-se no seu colo, encosta o rosto no dele. O marido é acariciado. Beija o na boca ele espantado com aquelas atitudes Acabou perguntando:
- Explica este mistério. Aconteceu alguma coisa. Aconteceu?
Ela suspira:
- Mudei ora!
- Alguma coisa deve ter mudado, explique-se melhor. Aqui há dente de coelho, disse coçando a cabeça.
- Tá bom... Sabe aquele seu prédio de São Paulo que você não conseguia alugar? Eu vendi...
- Ah sei... Milagres não acontecem à toa.
Naquela noite alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um tom humorístico, triste. “É hora de dormir, é tarde”. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
Raimundo Evilázio era o nome do padrasto de Ilidio. Nessa época ele estava divorciado de dona Gegê. A beira da piscina de sua mansão ele conversava com um amigo de Campo Maior que ele o conhecia desde menino e o visitara de surpresa:
- Como vai Dona Gegê?
- Eu acho que vai muito bem. Nós estamos divorciados há mais de vinte anos.
- É mesmo? Queira me desculpar pela pergunta imprópria.
- Não, claro que não!
Porém, após uma pausa acrescentou:
- O senhor deve lembrar de que eu conheci Gegê menor de idade e eu também muito jovem. Na realidade, não a vejo e nem nos falamos mais há quase trinta anos. Mas tenho um forte pressentimento que ela está feliz sem mim.
Gotas de suor surgiram em seu lábio superior, que ele secou com a própria mão.
- Para ser sincero, doutor Raimundo Evilázio! Isso me deprimiu um pouco. De repente eu sou responsável por surgir um passado quando a gente no presente só fala e vive o futuro.
Uma mulher entrou na piscina por trás do marido. A visita voltou-se para olhá-la. Dava a impressão de possuir uma força violenta, apesar do ar conservador e dos cabelos começando a ficar grisalhos estavam discretamente arrumados e pareciam brilhar de vitalidade.
- É a sua senhora atual?
- Sim.
Evilázio era o tipo do nome que ninguém mais dá aos filhos. Ele o chamava de Vilau quando era pequeno. Seus irmãos e os primos chamavam de Lalau. Depois de grande, passamos a chamá-lo como todo mundo: Doutor Raimundo Evilázio. O Juiz usava sabonete Phebo, tomava água de moringa em caneca de alumínio, teve um Jipe Willis, gostava de pescar era cheio de mania e algumas amantes o magistrado. Mais provedor que comedor. Tudo coisa que Ilidio queria imitar, mas não tinha competência para tanto. Possuía uma granja e adorava vender galinhas caipiras para os restaurantes da moda. Vendeu galinha a vida toda, através de um caseiro de confiança que dirigiu muito caminhão de galinha por Teresina afora.
Ilidio e Mano Zord se encontram depois de vários anos:
- E a Cacildis, sua noiva, como vai?
- Ah, cara! Nem me fale disso… Nós terminamos tudo faz algum tempo!
- Sério mesmo!? Nossa, mas a Cacildis era uma moça linda demais!
- Concordo, era linda mesmo, mas me diga uma coisa… Você se casaria com uma pessoa mentirosa, vagabunda e infiel...
- Não, nem pensar, de modo algum!
- Pois é amigo… E um cara sem-vergonha, picareta drogado, beberrão e fofoqueiro como eu, ela não! Foi assim que tudo terminou.

Continua...








Sobre este texto

ivan

Autor:

Publicação:13 de junho de 2012 10:02

Gênero literário:Crônica erótica

Tema ou assunto:Pulando a Cerca

Compartilhe este conto erótico com seus amigos
Este texto foi lido 93 vezes desde sua publicação em 13/06/2012. Dados do Google Analytics

Comentários

Novo comentário

Os comentários serão moderados. Não serão aceitos comentários agressivos ao autor e/ou que divulguem sites comerciais. No campo nome só aceitaremos nome de pessoas. Se tiver interesse comercial Fale conosco para saber nossa política de publicidade.

Não há comentários até o momento. Seja o primeiro!

Deixe seu comentário abaixo

*Campos com esta marca são de preenchimento obrigatório.
*

Seu endereço de e-mail não será publicado

Mova o seu mouse para fechar essa ajuda.
*